quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Barco de Papel

Eu. Tu. Nós.

Futuro?

Incógnita?

- Passeio na praia. Bola na areia. Papagaio ao vento e barco no mar. Aceitas? – perguntou ele com um certo receio e vergonha exposta na sua voz.

Pensativa. Incrédula a tal pergunta. Enquanto pensava, olhava fixamente para a flor alaranjada no meio da mesa, de pétalas compridas mas já deformadas pela viajem até casa. No entanto, mostrava um ar risonho, até provocador mas simultaneamente de timidez como se de algo dependesse a sua imagem e postura arrebatadora.

Ela sabia que a próxima coisa que dissesse mudaria a sua vida em muitas formas.

- Que bonito! – respondeu-lhe ela.

De forma também ela tímida e de poucas palavras ele disse:

- Ah, obrigado!

Já estava prometido à muito tempo a mim próprio, sabias?, pensava para ele próprio enquanto o seu coração batia à velocidade do vento em tempo de tempestade: acelerado, impaciente, algo triste pela demora em ouvir uma resposta mas mais que ansioso por sabê-la.

Da outra ponta da mesa, de cabeça segurada pela sua mão no seu queixo, ela revelava-se ainda mais pensativa. Algum medo era transparecido por uma felicidade imensa vinda do seu sorriso difícil de esconder, mesmo quando baixava a cabeça e fixava o seu olhar no tampo da mesa fazendo pequenas bolas imaginárias com os seus dedos. Parecia ainda uma pequena menina indefesa e na flor da idade. Ela sabia o que responder, mas não sabia como. Não era esquecimento, era uma maneira de se resguardar de uma próxima desilusão, de um próximo momento despedaçado. Sabia a resposta, mas precisava de um incentivo.

- Então… aceitas ou não? – pergunta ele por uma segunda vez, ainda mais impaciente e a mostrar-se vulnerável com indícios de algum desconforto por não se sentir em controlo da situação, tão bem como ele gostava.

- Err… sabes que sim! – respondeu ela timidamente.

Era algo que esperava à muito tempo, não sabias? descortinava na sua cabeça. Despoleta um sorriso e num simples movimento selecto e discreto, estica o seu braço e toca-lhe suavemente na mão dele. Ele sente um calor percorrer-lhe o corpo e a alma. Sente a mão dela acariciar-lhe os nós dos seus dedos e finalmente… está feliz.

- Passeio na praia. Bola na areia… Papagaio ao vento e barco no mar. Aceitas? – pergunta agora ela em jeito de brincadeira.

Ele não lhe responde com palavras. Solta uma pequena gargalhada, um sorriso desbocado e passa-lhe a mão acariciada pela sua bochecha, enquanto ela reage fechando os olhos enquanto sente a ternura do seu toque.

Eu. Tu. Nós.

Futuro?

Incógnita?

Já não…

À Beira de uma Alma Caminhante

O corpo cresce, a mente divaga e o espírito esmorece.

As crenças de um ser que vive num mundo religioso começam, desde a sua infância por serem como metas, objectivos para o alcançar de uma terra prometida. No entanto, essas crenças, fés vão desaparecendo à medida que crescemos, vivemos, repartimos ideias e opiniões. O espírito começa a ficar cansado, perdendo a ideia de que uma terra prometida possa realmente existir. O corpo crescido, adulto acha a realidade cruel, mais do que uma bola de convicções religiosas que darão resposta às questões que nos perturbam. A mente, essa, já não é a mesma da sua infância. Transmutada pelas duras vivências que o mundo a obriga a ultrapassar. Essa, sente-se também cansada, com vontade de deixar de existir. E assim, torna-se difícil acreditar em quer que seja.

O mundo em que vivemos, a realidade onde habitamos, esse, torna-se obsoleto e nós, habituamo-nos a ele. E perante isso, nenhum espírito consegue continuar a viver sob crenças e ideias de um futuro diferente e quem sabe, melhor.

Ter fé é o que guia muitos de nós, mas sinceramente cada vez mais temos que nos agarrar a algo mais do que uma vontade abstracta. O problema é, saber realmente a quê nos dias que correm.

Espectro

A imagem vai-se esbatendo perante o seu olhar cansado. As paredes ganham vida perante o cinzento escurecido do seu quarto. Sentado a uma secretária, escrevendo que uma espécie de diário no seu computador, notava-se em John a palidez da sua cara. O esverdeado dos seus olhos não era mais do que uma simples cor. A alma dele era agora transmitida como sendo algo frívolo. No meio da sua intensa escrita olha para a janela.

Do lado de fora, as cores vivas dos avermelhados e alaranjados que fazem do Outono uma complexa vivência de sonoridades, cheiros e sons. Uma amálgama de emoções incandescentes prestes a serem reproduzidas como que em uníssono. Tudo isto contrastava com o frio que se sentia à volta de John. As cores vivas e quentes que vinham do lado fora eram simplesmente barradas, para dar lugar ao vazio e ao incompreendido. Mas John, era na verdade um rapaz normal. Apenas tinha uma característica peculiar. Gostava de sentir na pele a sensação de aventura, perigo e morte.

Pensar Incomóda o Espírito

O pensamento incomoda. O pensamento dói. O pensamento torna-se o nosso pior inimigo. No entanto, o pensamento é incessante. Diário. Perturbador e cansativo.

O que nos leva a pensar? O que nos incomoda no nossa dia-a-dia que nos faça constantemente pensar para resolver o mais pequeno e ínfimo problema? A beleza de um ser, do seu consciente e simultâneo inconsciente faz-me acreditar que o pensamento é aquilo que, como uma faca de dois gumes, nos faz crescer, continuar, viver mas também, perdermo-nos numa teia de achares e incertezas proporcionados pelas nossas inseguranças. Pelos nossos medos. Pelo nosso próprio pensamento. Quantas vezes somos incomodados, quantas vezes nos vemos errantes da nossa consciência e da realidade a que estamos emaranhados, submetidos a um mundo extenuante e fatigante devido ao nosso mesmo ser. Vamos sendo agarrados para ruas infinitas de pontos de interrogação, de reticências, de questões tão simples como imensamente questionáveis e complexas.

Amor. O amor é apenas uma pequena imagem, um sentimento simples, mas que o pensamento o torna difícil, imenso e em diversas alturas árduo. Somos apanhados em ideias-fantasma sem resposta, onde na mais próxima tentativa de a perceber resulta numa catadupla e amálgama de novos entendimentos e outras novas reflexões a quererem ser compreendidas e percebidas. O compreender do pensamento é variadas vezes, apenas uma satisfação do ego do ser humano, na mais pura tentativa de satisfação em conhecer o que o rodeia. Não se trata de um defeito mas apenas da condição natural de ser Homem, de um ser vivo racional. De um ser humano disposto a saciar a sua curiosidade pelo desconhecido, pensando e reflectindo no que o aborda ou no que o torna insignificante – o mundo à sua volta, o universo e o indecifrável.

Como podemos nós confiar no nosso próprio pensamento? Pensar cansa. Pensar torna-se doloroso e muitas vezes, enganador. Vamo-nos cingir a nós próprios, que por si só já custa.

Quando o Diabo sabe que estamos vivos

Alguém me olha de cima, e eu, olho-o a ele de cima também. Tal e qual uma cadeia. Estamos a ser julgados por aquilo que fazemos ou dizemos. Somos autênticas personagens de um videojogo, somos controlados e dizem-nos quando devemos parar. Conseguem ver aquilo porque queremos morrer. Os actos que nos levam a matar alguém. No fundo, pertencemos a uma peça de marionetas. Sem emoções, onde as consequências não são mais do que meras partidas da nossa consciência.

No final, queremos fugir. Relembrar o que fizemos. Porém, será inútil perante tal força.

Alguém me continua a olhar de cima. Continua a dizer o que devo ou não fazer, pensar e falar. Continuo também a olhá-lo de cima. Mas agora, a cadeia foi interrompida. Ele não faz mais parte deste videojogo, desta peça de marionetas a que se viu preso. A partir de hoje é ele quem decide o seu próprio videojogo, a sua própria trama. Tornou-se autónomo perante as suas acções, e eu, infelizmente, não posso nem consigo ser assim. E porquê? Sinceramente não sei, mas por alguma razão estou aqui, e talvez seja essa a resposta por não conseguir tornar-me independente, e também, indiferente àquilo que me envolve.